APOSTAS

  • por em 11 de janeiro de 2021

Bruno Haddad/Cruzeiro/Flickr

         

Quiseram os fados e a nossa incompetência administrativa nas últimas décadas que o tão sonhado Centenário nos encontrasse literalmente no chão.

Revisitando o que fizemos, por exemplo, nos últimos 30 anos e o que deixamos de fazer, vem a noção de quanta coisa teria evitado a tragédia de hoje. A principal delas, o costume consagrado de deixar dívidas para as próximas gestões, graças ao presidencialismo sem limites permitido pelo Estatuto. Em seguida, a falta de Complience, ou seja, um mecanismo que assegurasse transparência nos atos de comprar e vender jogadores, acertar com intermediários e agentes, gratificar, fixar salários, distribuir ingressos e camisas, gerir divisões de base, contratar assessores, usar cartões corporativos, etc.

Sob esse foco de grande angular, nenhum presidente pode ser acusado de culpado único pelo que nos acontece hoje. Todos estamos no balaio. O que nos diferencia é o que, em Direito chama-se “grau da culpa”. As lesões corporais, por exemplo, podem ser leves, graves ou gravíssimas. Outras, de tão insignificantes, saem do Código e vão para o rol das infrações, como avanço de sinal de trânsito.

Não há dúvida de que Wagner Pires e sua equipe cometeram faltas gravíssimas, sem paralelo nestes cem anos. Casos de polícia. Inclusive são réus em ação penal.

Nas demais administrações, anteriores e posteriores a Wagner Pires, o julgamento será o da História, ainda não concluído porque quase sempre só o Tempo fornece luz suficiente ao clareamento dos fatos. Estão nessa conta os 6 pontos da FIFA (para muitos, mais decisivos do que os 24 que jogamos no lixo no Mineirão), a expulsão dos atletas da base que “mancharam” o nome do Cruzeiro ao receberem garotas de programa num hotel em Chapecó, e que hoje brilham em outras equipes; as contratações de “aspones”; de pessoas “de minha confiança”, para atuarem num grupo sobre o qual assim já declaro minha desconfiança. etc. Um rosário de erros desta administração e da anterior (minha e do Conselho Gestor).

Como afirmado na primeira linha desta coluna, os fados e más administrações uniram-se para nos nocautear. Os erros de comando foram e são evidentes. Mas os fados, que se materializam nos técnicos que escolhemos, merecem um capítulo à parte. Foram e são um fracasso, infelizmente, mas não se pode acusar nem a eles e nem quem os contratou. Para o nosso grave momento, foram apostas, plenamente justificáveis, tinham tudo prá dar certo e não deram. Mano Menezes saiu com o time descendo ladeira abaixo, após confessar que não sabia mais o que fazer; Veio Rogério Ceni, com a esperança da Nação Azul, mas não teve “domínio de classe”, como revela também no Flamengo; Abel Braga não chegou a decorar o nome de 10% dos jogadores; Adilson Batista, cruzeirense de raiz, era aposta de nós todos. Enderson Moreira, na Série A, mantinha o Ceará invicto há várias rodadas, mas aceitou o desafio de salvar o Cruzeiro na Série B. Quem poderia ser contra? Continuamos em queda livre e resolvemos chamar aquele que, há dois anos, garantiu a volta do Goiás à divisão de elite: Ney Franco. Outra aposta fracassada. Mas só Mãe Diná sabia que não daria certo.

Todos eles profissionais competentes, responsáveis, de caráter. Tentaram e não conseguiram nos livrar do abismo. Apostas mais que fundamentadas, aplaudidas na época, se transformaram em foguetes molhados. De lembrar-se que há 19 times da Série A e 20 da B com folha salarial menor que a do Cruzeiro. Alguns que nos colocaram na roda, vergonhosamente, quitam sua folha mensal com o salário de um jogador nosso. E ainda sobra.

Não adianta chorar leite derramado mas, agora, vamos malhar os fados que, justo no Centenário, nos abandonaram. Num sonho, imaginemos lá atrás que, por uma incrível sucessão de imprevistos, Abel Braga vindo acertar com o Cruzeiro perca o voo para BH e resolva não mais viajar. O imponderável entra em cena e nossos diretores, pelo mais absoluto acaso, se encontram com Felipe Conceição. Ele estava reestruturando o América, contrato vencido e desejo de novos desafios. Vamos imaginar que, ao invés de ir para o Bragantino e depois Guarani, quase falido, recupera-lo a ponto de lutar hoje pelo acesso, Felipe Conceição tivesse assumido o Cruzeiro.

O que ele teria feito?

No mesmo patamar, podemos colocar Lisca e Umberto Louzer, cujos times, América e Chapecoense, com recursos absurdamente menores, já garantidos na Série A, disputam o título da B.

Seriam outras apostas. Sabemos que o sucesso deles, hoje, não é garantia de que fariam o mesmo no Cruzeiro.

Mas os fados poderiam ter nos dado uma mãozinha…

BATE PAPO NO QUINTAL

1. O teste para cardíacos, que foi o jogo contra o Sampaio Correa, com 29 finalizações deles, comprova que precisamos aumentar em alguns graus o nosso potencial de ataque. 1 x 0 é perigoso demais, principalmente quando, recuando prá nossa intermediária, convidamos o adversário a entrar no baile. Quantos empates e viradas tomamos no último minuto? Quantas noites de insônia atrás de resposta para uma pergunta simples: porque estamos jogando tão mal? Porque outros times, com jogadores mais inexperientes que os nossos, sem recursos, semiprofissionalizados, nos tiram tantos pontos na nossa casa? Há quanto tempo não fazemos um 2 x 0?

2. Rei Melo faz ponderada e profunda análise da situação do Cruzeiro, revelando que não verá os jogos que faltam. É triste, parece que é uma brincadeira de mal gosto o que está acontecendo conosco. Mas você aguentará não ver os jogos? Não! Já tentei, em protesto, e não consegui. É carma.

3. Alex Souza enfoca as intoleráveis infantilidades de Pottker e destaca, no primeiro cartão, que marcada a falta ele isolou a bola. Comentei este fato, na coluna. Mas não vi na imprensa referência nesse sentido. Acho que só o Alex e eu vimos o gesto que provocou o cartão, ou seja, não foi pela falta em si, mas pela rebeldia consequente. A culpa de Pottker é, assim, muito mais grave. Tomou o primeiro cartão “de graça”. Dois minutos depois, marcada outra infração, faz comentário crítico sobre a pessoa do Juiz, toma o segundo amarelo, e é expulso. Estávamos com cinco minutos do segundo tempo. A Nação Azul aguarda a divulgação da punição dada ao jogador.

4. Galo Doido New York e Davi deitam e rolam com a nossa desgraça. Situação horrível, não há como negar. Estamos de fato comendo o pão que o diabo amassou.

Mas só mesmo um Clube com a grandeza do Cruzeiro para sobreviver ante esses desafios: primeiro, o Corona-Wagner; depois o Coronavirus e, para piorar tudo, o rebaixamento à Série B, em pleno confinamento. Ou seja, disputando jogos decisivos em nossa casa, sem o apoio da Nação Azul. Só em BH perdemos 24 pontos para times cuja meta é não cair para a Série C. Com a força da torcida em campo isto seguramente não teria acontecido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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