PROCÓPIO TAMBÉM CHEGA AO QUINTAL E DESCREVE 3 BATALHAS INESQUECÍVEIS

  • por em 25 de julho de 2020

Arquivo Estado de Minas

Procópio, zagueiro tipo xerifão, tri campeão mineiro pelo Cruzeiro (59, 60 e 61), bicampeão (67,68), dentre tantas medalhas e taças, tem conquistas pessoais que jogam um brilho diferente em seus olhos quando fala sobre elas: nunca perdeu um clássico para o Atlético; Ubaldo, Dario e Reinaldo nunca marcaram gol com ele em campo.

Para as gerações atuais pode parecer pouco. Mas é muito!

Ubaldo, endiabrado, costumava marcar gols “impossíveis”, logo chamados de “espíritas”.  Com frequência, saía de campo carregado pela torcida enlouquecida. Dario Peito de Aço não ficava atrás. Dizia que só três coisas paravam no ar: helicóptero, beija flor e ele, Dadá, ao fazer incríveis gols de cabeça. Reinaldo, precocemente afastado do futebol por contusões, é comparado sem exagero aos melhores craques mundiais.

São estes três cracaços que Procópio “punha no bolso” quando enfrentava o Atlético, não só vencendo a partida, mas também impedindo que fizessem gol.

É este senhor zagueiro que elege hoje, para o QUINTAL, os seus três jogos inesquecíveis. Dois como jogador e um excepcional, inacreditável, como técnico.

1º. JOGO –  1960 –  CRUZEIRO 0 X 0 ATLÉTICO-MG 

Procópio estava 50 dias parado, recuperando-se de grave acidente viajando para Salinas; braço quebrado, cortes profundos na cabeça e na garganta. Voltou na semana do clássico e fez apenas dois coletivos. Seria a decisão do campeonato mineiro. Empate dava Cruzeiro. O reserva de Procópio era Benito Fantoni, sobrinho do técnico Niginho.   Quem deveria entrar? Na época não era permitida nenhuma substituição. Os 11 que entravam jogavam até o fim ou enquanto pudessem. Na concentração, Felício Brandi chegava perto do Procópio e sussurrava, como se fosse uma grande novidade: – Ubaldo vai jogar!

A dúvida persistiu até horas antes de começar o jogo: médico, técnico, presidente e Procópio conversavam e conversavam sem chegar a um consenso. Na última hora, uma pergunta direta para aquele jovem de 21 anos: você acha que pode jogar?

Até hoje Procópio não sabe de onde tirou a coragem para dizer sim:

“ Fui para o pau, como se diz na linguagem do futebol. Precisávamos do empate. Eu não podia falhar. Seu Niginho apostou em mim. Ubaldo não viu a cor da bola. Terminou 0 x 0. Fomos campeões. Era meu segundo ano no Cruzeiro. Conquistei meu primeiro bicampeonato mineiro. Ao final do jogo, torcedores me carregaram na volta olímpica. ”

2º. JOGO – 1966 – SANTOS 2 X 3 CRUZEIRO

Segundo jogo da decisão da Taça Brasil. Na primeira partida, 6 x 2 Cruzeiro, no Mineirão. Não havia a vantagem do gol fora de casa.

Noite de chuva forte, no Pacaembu. Campo cheio de poças d’água. O Santos, time cascudo, forte. O Cruzeiro um time leve…

“… se ventasse nossos jogadores perigavam voar. ”

O Santos fez 2 x 0 no primeiro tempo.

“No intervalo, o presidente da Federação Paulista, Mendonça Falcão, e o dirigente santista Modesto Roma, foram ao nosso vestiário para marcar a 3ª. partida da decisão”, como se a fatura estivesse liquidada.

O presidente Felício Brandi os expulsou do vestiário aos berros, de uma forma tão fervorosa que nós escutamos tudo lá no fundo do vestiário. Até então estávamos cabisbaixos, mas aquilo mexeu conosco e voltamos com a faca nos dentes para o segundo tempo.

A chuva parou. Voltamos e encontramos um campo apenas úmido, sem poças d’água. A drenagem do Pacaembu era a melhor do Brasil e deixou o campo em condições ideais para o ataque rápido e rasteiro do Cruzeiro.

Aos 6 minutos, Tostão perdeu um pênalti. Mas aos 9 fez um golaço de falta. Daí para frente, imprimimos um ritmo tão forte e demos um chocolate tão cremoso no Santos que o Milton Neves teve de ser abanado nas cabines de rádio. ”

3º. JOGO –   1977 – CRUZEIRO X ATLÉTICO-MG

Final do campeonato mineiro de 1977. Melhor de três. O Atlético havia vencido o primeiro jogo por 1 x 0. Yustrich era o técnico do Cruzeiro. Felício Brandi liga para Procópio, pede que ele assista o tape na TV Tupi e em seguida retorne a ligação ainda naquela noite de domingo. Procópio cumpriu as tarefas e foi marcado um encontro na Toca, segunda feira, de manhã. Para sua surpresa, Procópio, conduzido à sala do Yustrich, ouviu a “bomba”: iria comandar o Cruzeiro nas duas últimas partidas, “extraoficialmente”.

“Yustrich ficou uma fera e esbravejando se virou para mim, cresceu para o meu lado e aos gritos perguntou ao doutor Felício: – O que ele vai fazer que eu ainda não fiz??

“Eu, no mesmo tom, olhando nos olhos dele, respondi: “Eu vou proibir Eduardo e Joãozinho de voltar para marcar”.

“Começamos a ganhar o título quando acordei na terça-feira e li no Estado de Minas (que não circulava segunda-feira) uma entrevista de Toninho Cerezo dizendo que, enquanto ele, Reinaldo e Paulo Isidoro jogassem no Atlético, o Cruzeiro não teria vez em Minas Gerais. Mandei comprar 100 exemplares do jornal. Recortada a reportagem, mandei dois funcionários afixarem a matéria na Toca inteira, até nas árvores do estacionamento. Vestiários, banheiros, restaurante, corredores. Jogador chegava no campo prá treinar e via o exemplar nas minhas mãos.

Ganhamos os dois jogos restantes. E fomos campeões mineiros. ”

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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