VOTAÇÃO DO ESTATUTO SUSPENSA: O CRUZEIRO PERDE OU GANHA?

  • por em 26 de novembro de 2020

Vinnicius Silva/Cruzeiro/Flickr

Era para ser mero episódio administrativo, a suspensão da assembleia em que seria votado o projeto de novo Estatuto do Cruzeiro, mas está provocando estranha reação.

Como se sabe, um grupo de conselheiros entrou com ação judicial comprovando a absoluta inconveniência de se realizar votação praticamente às escuras, em plena pandemia causada pelo Coronavirus. O conselheiro compareceria virtualmente, sem saber o que estava fazendo e em que estava votando. Cumprido o horário estabelecido, em segundos se divulgaria a aprovação do novo Estatuto por 1.500 ou 1.800 votos, sem qualquer segurança quanto a autenticidade do resultado.

Outro motivo forte para a suspensão foi o tempo curto que sobrou para contestações, debates e sugestões, tudo até então feito à meia boca, numa pressa injustificável. Aberrações foram apontadas tão logo se divulgou o projeto, como a concessão casuística de três mandatos sucessivos para o atual presidente e a farra de distribuição de títulos de conselheiro benemérito (presidentes de comissões e vices eleitos, atuais e passados). Esses absurdos, uma vez apontados, deveriam merecer dos responsáveis um posicionamento objetivo, seja para extinguí-los ou para confirmá-los, neste caso justificando-os. Mas não houve. Sem outro recurso e tendo em foco outras anomalias, um grupo de conselheiros decidiu ajuizar a ação, com êxito imediato.

A liminar suspendendo a assembleia foi divulgada segunda-feira e, no dia seguinte, em nota oficial, a presidência do Cruzeiro declara que não recorrerá da decisão judicial, ato louvável que reflete administração democrática, de respeito ao contraditório:

“O Cruzeiro comunica que não é contra o cancelamento ou adiamento da votação, mas ressalta que o que mais surpreende é que a solicitação de modernização do Estatuto e, consequentemente, a convocação para sua votação era inclusive de alguns dos autores da ação”.

O comunicado, porém, interpreta mal o propósito dos autores da ação. Todos eles, tal como a Nação Azul, querem um novo Estatuto, com normas rigorosas que coíbam a repetição de tragédias administrativas, regras de compliance, mais rigor curricular para membros do Conselho Fiscal, etc.   Só não querem o casuísmo de três mandatos seguidos, o brinde de Beneméritos e outras anomalias.

Com boa vontade geral, sem correria, o projeto poderá ser aperfeiçoado e aprovado em condições claras de manifestação de quem irá votar.

O Cruzeiro, recentemente assaltado por aqueles que deveriam bem administrá-lo, merece mais cuidado, transparência e respeito quando se procura blindá-lo contra o ataque de eventuais futuros aventureiros.

BATE PAPO NO QUINTAL

Mensagem apócrifa, longa, covarde e infantilmente contraditória, foi distribuída ontem à tarde em vários grupos sociais, criticando-me, como presidente interino que fui, o ex Conselho Gestor e os impetrantes da ação judicial. O autor se identifica como “um associado que vive o Cruzeiro 24 horas por dia”. Mas não tem coragem de assinar. Esbanja frases para mostrar a fragilidade que o Cruzeiro ficará sem o novo Estatuto, se esquecendo que o atual presidente ainda vai começar a cumprir um novo mandato de três anos. Tempo mais que suficiente para o debate aberto, deste ou de outro projeto, aperfeiçoado pela contribuição de uma gama de cruzeirenses bem-intencionados, que querem ajudar, sem casuísmos nem vantagens pessoais. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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