A tragédia que poderia ter sido evitada

  • por em 28 de junho de 2020
José Dalai Rocha, atual presidente do Cruzeiro

Vinnícius Silva/Cruzeiro

Na véspera do Natal passado, quando a diretoria renunciou e tivemos de assumir o Cruzeiro, foi apavorante ir tomando conhecimento dos estragos. Mais ou menos como entrar em casa incendiada e em cada cômodo ter surpresa mais desagradável. Contas e mais contas a pagar “ontem” e o caixa sem condição de garantir o cafezinho. Com o passar das primeiras semanas, o exame dos contratos absurdos firmados com jogadores, assessores e fornecedores, bem como a política salarial (você, que ganha 7 passa para 20 mil; você que ganha 30 passa para 50 mil…) foi pincelando na minha cabeça a imagem do Cruzeiro como um caminhão de carga tombado na rodovia, sem qualquer vigilância, entregue a saqueadores. Acabou meu Rivotril. Era uma pancada nas costas, todo dia. Alivio e esperanças vinham sob o codinome de Conselho Gestor.

Sem aqueles empresários, pescados por Gustavo Gatti, e que arregaçaram as mangas pra salvar o que podia ser salvo, o barco literalmente teria afundado.


Mas, houve um dia em que recebi pancada na alma. E foi o mais triste destes cinco meses à frente do Cruzeiro. Descobrimos que desde o início de 2019 a BDO do Brasil, empresa de auditoria que integra o seleto grupo mundial das Big 5, vinha atuando no Cruzeiro e resolvemos então convidar os seus dirigentes para, em reunião conosco, apresentarem o que haviam apurado até então. Era difícil conter a ansiedade, enquanto os diretores da BDO, o Conselho Gestor e nossos assessores praticamente lotaram o salão de 30 lugares, contíguo à sala do presidente. Tela para o power point preparada, o líder dos auditores nos informa que vinham trabalhando desde o início de 2019 e, ante os gravíssimos resultados que alcançavam, pediram à presidência do Cruzeiro uma reunião de emergência, então agendada para maio.
Esse mês tornou-se simbólico! Conquistamos o campeonato mineiro, contra o Atlético, em pleno Independência. No cenário nacional, tínhamos o melhor ataque e a melhor defesa! Timaço!
Óbvio, em maio não sabíamos o que iria nos acontecer no fim do ano. Mas
quanto mais sabemos e sentimos o quanto foi doloroso passar o que passamos, mais é de se lamentar que tudo poderia ter sido diferente, se fosse outro o resultado daquele encontro com a realidade, promovido pela BDO.
Naquela mesma sala de reuniões, nos mostraram o que havia sido mostrado
para a diretoria do Cruzeiro: resultados calamitosos, sintetizados em gráficos de eloquência ensurdecedora. Os custos do futebol profissional eram, por exemplo, 10, enquanto que Flamengo, Inter, Grêmio, Palmeiras, Corinthians ficavam abaixo de 5; O mesmo quanto às divisões de base; O mesmo quanto ao custo da administração. Absurdo dos absurdos. Passando aos lucros obtidos, a proporção se invertia. Os principais concorrentes nossos, investindo muito menos lucravam muito mais.
Segundo o expositor da BDO, ao ser descarnada assim, com crueza, a
gravíssima situação de qualquer Clube, o que invariavelmente acontece é uma comoção geral e indagações ansiosas, dessas de coração saindo pela boca, sobre sugestões de medidas drásticas, urgentíssimas a serem tomadas “pra ontem”!

Desculpe, meu paciente leitor, a insistência da lembrança. Mas estávamos em maio de 2019. No campo, tínhamos um timaço! A gravíssima situação
administrativa, tipo barco afundando, poderia ser contornada com medidas
drásticas cortando custos, expulsando imediatamente corruptos notórios e
sanguessugas, uma economia de guerra, a convocação – por exemplo – de um “Conselho Gestor de Crises”!
Fernando Pessoa já nos lembrava que “ tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
Tínhamos tudo, em maio de 2019, pra evitar a tragédia então explicitada
naqueles gráficos pavorosos! Bastava para aquela diretoria, um décimo do
sangue e da alma do torcedor que viaja debaixo de chuva e em condições
precaríssimas, pra aplaudir o time em qualquer biboca de campo deste Brasil afora…
Mas esta garra, este amor, esta coisa que ainda precisa ter um nome certo, que sentimos pelo Cruzeiro, não estava na diretoria.
Gráficos pavorosos na tela. Silêncio na sala.
Itair se levanta, pega o presidente Wagner pelo braço. Os dois saem para o
gabinete. E fecham a porta. Compreendi claramente que ali, maio de 2019, estava selado o destino do Cruzeiro. Viver o mundo do faz de conta, o máximo possível. Foi o dia mais triste.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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