Cruzeiro não pode agora vender imóveis

  • por em 13 de julho de 2020

A sabedoria popular ensina que “casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.”

Toca da Raposa

A sabedoria popular ensina que “casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão.”

É o caso do Cruzeiro.

Aqui foi duplo o pão que faltou: tragédia administrativa e queda para a série B. Enquanto outros clubes “caíram em pé”, facilitando a reabilitação, nós fomos nocauteados. Antes de pensar nas novas lutas, tivemos de acordar e, com detergentes, herbicidas e raticidas, desinfetar a casa. Sem essa assepsia seria impossível reagir. Coragem não faltou para tomar as decisões que, nas circunstâncias, nos pareceram mais indicadas. Hoje, passadas as tormentas mais graves, vicejam campos férteis para uma praga tão insistente quanto incômoda e que atende por dois codinomes: profeta de guerra acabada ou engenheiro de obra feita. Deveria ter feito isto; não deveria ter feito aquilo… e tome-se crítica de quem fala de longe do vulcão ativo.

Fica fácil, criticar depois, principalmente pela impossibilidade de se comprovar que a nova ideia daria certo naqueles dias tenebrosos.

Não há dia que não recebo críticas desses profetas e engenheiros, principalmente por três questões: FIFA, Conselheiros remunerados e imóveis. Cometi a temeridade de dizer que nossas primeiras tentativas de acordo no caso FIFA se deram por telefone, em janeiro/fevereiro. E provoquei o ataque do profeta: 7 gestores ligando todo dia para Ucrânia, Emirados Árabes e Equador levaram 60 dias para descobrir que não daria certo… como se não houvessem outras fogueiras até mais graves nos desafiando todo dia. No caso dos conselheiros remunerados, quem devia ter assinado a exclusão não era o presidente do Clube e sim o presidente do Conselho Deliberativo… no caso o profeta se esquece que a situação do Cruzeiro era tão anômala, tão inacreditável, que a contragosto passei a exercer, absolutamente sozinho, as duas presidências.

Mas é quanto aos imóveis do Cruzeiro que as barbaridades estão cada vez mais frequentes e mais ofensivas. Onde estava “este juiz de direito aposentado ” que não pôde vender sequer um imóvel para nos livrar do rebaixamento? Porque não começou um shopping no Barro Preto, aproveitando aquele terrenão?

Tudo que o Cruzeiro precisa hoje é de paz interna para continuar a reconstrução. Como este assunto dos imóveis continua dominando e às vezes dividindo grupos que devem se manter unidos, como forças positivas, achei que será útil, até mesmo para evitar discussões estéreis, recordar o que diz o Estatuto e informar a situação de cada imóvel.

Primeiro, o Estatuto.

Segundo o art. 20, item sexto, o Conselho Deliberativo pode autorizar a alienação de bem imóvel do Cruzeiro:

“excluídas as unidades que compõem o Parque Esportivo do Barro Preto, o Centro Administrativo, as Sedes Campestres, a Toca da Raposa I e a II, imóveis somente alienáveis em situação altamente vantajosa para o Cruzeiro, mediante proposta aprovada por 9/10 (nove décimos) dos Conselheiros”;

Ou seja, para vender esses imóveis duas são as rigorosas exigências: a proposta tem de ser “altamente vantajosa” e ser aprovada por 9/10 não dos presentes, mas de todos os Conselheiros. Com o quadro atual de 480 (entre efetivos, natos e beneméritos) seria obrigatória a presença física de pelo menos 432 conselheiros e que todos eles, sem uma exceção, aprovassem a venda.

Praticamente impossível, hoje, conseguir uma aprovação nestas condições.
Mas os obstáculos não param aí. Em razão das muitas execuções sofridas pelo Cruzeiro, a tentativa de alienação poderia ser vista como fraude aos credores (débitos ainda não ajuizados) ou fraude à execução (ações em andamento) e o resultado imediato seria a sustação do negócio pretendido.

Não fora tudo isto, outro empecilho trava a alienação: imóveis não regularizados. Nada que assuste ou comprometa o nosso patrimônio. Somos donos de tudo que temos, mesmo que em alguns casos falte escritura registrada. E somos donos porque temos, também, a posse, mais que vintenária, mansa e tranquila de todos eles. Mas em caso de venda, teríamos, como é óbvio, de concluir a regularização imobiliária. Por exemplo: na construção da Toca – 2 foi “engolida” uma rua pública. O caso está em processo de regularização da planta na Prefeitura. Quanto à sede social do Barro Preto, recebemos em doação clausulada do então Governador Juscelino Kubistchek. Esse tipo de doação obriga o donatário (Cruzeiro) a manter sempre o objetivo visado, ou seja, proíbe a alienação. Mas há sempre uma forma legal de vencer esse óbice, provando-se por exemplo que o negócio seria vantajoso para o Clube. América e Atlético também receberam doações para seus estádios e conseguiram vender. O Atlético, inclusive, conseguiu a façanha de vender e, receber duas vezes, o seu terreno em Lourdes. Mas isto será motivo de uma conversa especial neste QUINTAL.

O importante é que a gente não perca tempo em clamar por alienação de imóvel como se fosse uma solução que viesse com a rapidez que os problemas exigem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

All Comments