PERDÃO, ATLETICANOS!

  • por em 4 de setembro de 2020

Vinnicius Silva/Flickr/Cruzeiro

Já tive, honrosamente, procuração escrita e moral de quase todos os nossos 9 milhões de cruzeirenses para agir e falar em nome deles, naqueles tempos terríveis de tsunami interno.

Hoje, falo apenas em meu nome e quero pedir perdão aos atleticanos.

Tem sido difícil aguentar nestes últimos 60 dias o que vocês aguentaram 60 anos! É uma raiz de dente exposta, ver o nosso time tão mal e o rival tão bem. Nas últimas 48 horas, enquanto perdíamos para o Pelotas, em Caxias, ficando na beira da zona de rebaixamento da Série B, o Atlético quebrava a invencibilidade do São Paulo e subia para o G4 da Série A.

A sabedoria popular cunha situação assim com expressão que resume tudo: Além da queda, coice.

O cara cai do cavalo, um tombaço, e quando quer se levantar toma um coice daqueles!

Quem bate, esquece; quem apanha é que lembra, diz outra sábia lição. Por 60 anos, com raríssimas exceções, batemos sem dó nem piedade, cometendo bullyng em incapaz. A gente era feliz e sabia. Só não percebíamos, vivendo a euforia de glórias e de títulos, o tanto de sofrimento silencioso que causava no adversário. Surgiu daí e acompanha as últimas gerações alvinegras o sentimento reconhecido pela ONU e pelo Vaticano: “O atleticano é um sofredor”.

Aprendeu a apanhar, cantando. Fez das tragédias em campo uma senha permanente de esperança. E a vida foi passando. A Sala de Troféus do Barro Preto se entupindo, o Atlético caindo para a Série B, a gente gozando a turma, sem perceber como isto dói.

Em 2011, ficaram a um passo do Paraíso. No último jogo do campeonato brasileiro, Cruzeiro e Atlético em Sete Lagoas, bastava o empate e a gente caia para a B. A gente em queda livre, perdendo pra todo mundo. A massa atleticana mal respirava esperando o início do jogo. Venda de foguetes esgotada, pelos lados de Lourdes. Esperavam um massacre.

Tomaram de 6 x 1

Ficaram com um espinho entalado na garganta, desses que às vezes somem, às vezes doem de novo. O presidente do Atlético, na época, disse que foi o dia mais triste da vida dele. Para nós, ao contrário, um dos mais felizes de nossas vidas, juntando-se aos dias gloriosos que nos deram 2 Libertadores, 2 Supercopas, 4 Brasileiros e 6 Copas do Brasil.

Para culminar, o reconhecimento como O MELHOR CLUBE BRASILEIRO DO SÉCULO 20! 

Como já lembrei neste Quintal, fizeram certa vez pesquisa nos Estados Unidos: Você prefere ganhar na Loteria ou ver a casa de seu vizinho, que é muito melhor do que a sua, pegar fogo?

Ganhou o incêndio. Por um desvio de personalidade, muitos sentem-se mais realizados vendo o fracasso do adversário ou concorrente, do que com o próprio êxito pessoal.

Com o Cruzeiro, incrivelmente, durante 60 anos a gente nem percebeu que ganhava na loteria e via a casa do vizinho pegar fogo!

Agora, há 60 dias eles trocaram de lugar conosco.

Aproveitem, porque vamos pelo menos apagar logo o incêndio!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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