Está aberto o Quintal do Dalai

  • por em 26 de junho de 2020

Cortando a fita de inauguração deste QUINTAL, achei que poderia responder aqui uma das perguntas mais recorrentes que venho recebendo até hoje: qual foi meu pior momento no Cruzeiro e qual o melhor?
É claro que tudo se refere ao tsunami particular que atingiu o nosso Clube a partir do fim do ano passado: é como já vimos em móveis antigos, de madeira. A aparência perfeita para fotos. Mas abrindo portas e gavetas vemos que o cupim comeu tudo.
9 milhões de torcedores tomaram uma paulada na cabeça. Também tomei. A diferença é que eu entrei no olho do furacão. Dia 23 de dezembro: aguardei no quinto andar, sala do Conselho Deliberativo, a saída da diretoria renunciante e depois subi para o sétimo, onde fica o gabinete. Um clima de velório dominava o ambiente. A secretaria Luciana me recebeu, abriu a porta da sala ampla, cheia de troféus, uma parede azul com as cinco estrelas, e a cadeira presidencial esperando um cara com o coração saltando do peito, que jamais pretendeu nem sonhou viver aquele momento.
E agora, José? Festa acabou. A orquestra não recebeu. E agora, José?
Pedi a todos que me dessem uns minutinhos prá conversar comigo. O pensamento estacionou na corrida de revezamento, figura que sempre usei para homenagear as administrações passadas quando o Cruzeiro recebeu o título de Melhor Clube Brasileiro do Século 20, outorgado por Instituto de Pesquisa alemão, reconhecido pela FIFA.
Desde 1921, dizia eu, temos o privilegio de contar com presidentes iluminados que foram passando o bastão para os sucessores, sempre à frente dos concorrentes. O resultado é uma penca de títulos que nos enchem de orgulho. Aí, a minha ficha caia, junto com o bastão que estava recebendo, no chão. A corrida tinha agora de recomeçar do zero, com um maratonista de 82 anos!
Mas vamos hoje ao melhor momento: dois de janeiro, igreja de São Sebastião. Junto com o recém empossado Conselho Gestor, assistimos à missa de nosso nonagésimo nono aniversário de fundação. Não havia banco vago e a torcida quase fechando a avenida Augusto de Lima, aguardava. Encerrada a cerimônia, recebo apavorado a informação de que era esperada a palavra do presidente do Cruzeiro. Imagine, o presidente era eu! Mas falar o que? De terra arrasada? De falta de dinheiro prá pagar conta de luz?
Até hoje não sei o que falei. Mas sei que fui coberto pelos torcedores no interior da igreja, para fotos e autógrafos, enquanto me avisavam que a torcida queria me levar nos ombros até a sede da rua Guajajaras… Sarinha, minha mulher, providenciou um taxi que entrou pela lateral da igreja. Entramos meio camuflados e conseguimos deixar o local. Alí tive a certeza de que o Cruzeiro vai ressurgir ainda maior do que era!
Foi o dia mais feliz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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