OBRIGADO, FELIPÃO!

  • por em 27 de janeiro de 2021

Gustavo Aleixo/Cruzeiro/Flickr

Que as coisas não saíram como a gente imaginava, nem precisa dizer. Você esperava mais do que foi entregue pelo Cruzeiro. E o Cruzeiro esperava mais de você.

Na sua chegada mandei-lhe, neste QUINTAL, carta aberta, subscrita por milhões de cruzeirenses. Louvava sobretudo a sua coragem de assumir barco afundando, você, comandante vitorioso de tantas travessias. E o novo desafio à sabedoria milenar: nunca volte a um lugar em que foi muito feliz. Na seleção brasileira, você havia aprendido com dor esta filosofia de vida. Resolveu arriscar outra vez e nós aplaudimos.

A esperança batia no compasso do coração azul, à espera de um milagre. Mas, a paixão veda os olhos e embaraça o raciocínio. Onde era cipoal, a gente via gramado; onde era precipício, a gente via caminho florido. Você, ao contrário, enxergava e sentia a realidade sem retoques, no dia-a-dia com a diretoria e à beira do gramado.  E não gostava. 

Agora compreendemos o choque de expectativas. Enquanto a Nação Azul jogava as fichas na recuperação do time rumo ao G-4, você afogava essa euforia num balde de água gelada, confessando sua meta:  escapar da Série C. Estávamos ainda na 15ª rodada. Havia mais 23 a serem jogadas. Até o piloto automático poderia nos livrar do descenso. 

Decepção geral. Perdi o ânimo de escrever todo dia, inclusive sábados, domingos e feriados, mensagens motivadoras pra empurrar nosso time pra frente. Agora dia sim, dia não, passei a reclamar da falta de jogadas ensaiadas, de esquema de jogo, de melhor aproveitamento nos escanteios e faltas. Pedia um time em campo. Mas nós não temos time. Você está dizendo isto, ao voltar para o sul. 

Uma pena que nada tenha dado certo. Esforço seu e dos jogadores, não faltou. Em campo, faltou liga. Aquele misterioso ajustamento que faz alguns treinadores tirarem leite de pedra, enquanto outros se complicam com vaca holandesa.

Fora de campo não foi diferente. O Cruzeiro pincelado junto com o convite, que o motivou a assinar contrato de 3 anos e coloriu sua imaginação na viagem para Belo Horizonte, ficou na miragem.

Bom pra você que, numa inovação desconcertante, o contrato só tenha multa, por rescisão antecipada, contra o Clube. É como galinha na manguara. Para o Cruzeiro desistir de você, multa de 10 milhões de reais. Pra você desistir do Cruzeiro, bastou pedir o boné e marcar voo pra Porto Alegre. Era pra ficar três anos. Ficou três meses.

Quem sabe, por nos tornarmos tão apequenados ao contratá-lo desta forma, você tenha concluído que nossa meta maior deveria ser mesmo não cair para a C?

Para onde você for, seja feliz!

Aqui, ficamos nós e nossa insignificância momentânea no futebol brasileiro. Somos um time grande que está pequeno. E que não pode errar mais: tanto na congregação de forças apartidárias, com fichas limpas, atenuando o sufoco financeiro, quanto para formar um time cascudo, que jogue pra vencer.

BATE PAPO NO QUINTAL

1. Mecão das Gerais discorda de minha tese do “Cruzeiro Injustiçado” e adverte que dinheiro público não pode financiar mazelas de entidades privadas. Você tem toda razão: dinheiro público é para saúde, educação e segurança. O que não aconteceu com o Atlético, recebendo duas vezes, do Estado, pelo terreno de Lourdes. No caso do Cruzeiro não falei em perdão de dívidas. Pedi moratória, porque o confinamento mundial trava a economia e dificulta a recuperação. Entidades públicas ao cancelar ou suspender impostos em algumas regiões ou para algumas classes atendem a esta excepcionalidade.

2. Sem Paciência, com o apoio de Pereira, tripudia sobre “um paciente em estado terminal”, contrapondo ao nosso drama a ”bem planejada engenharia financeira” do Atlético, assegurando a construção do estádio, sem dívidas. “Nós, atleticanos, estamos pagando. Esse almoço é bem caro, mas vale a pena”. No mesmo tom, o cirúrgico comentário de Guioday Rodrigues. Sei não. Vovó alertava sempre: “Até santo, quando vê muita esmola, desconfia. ”

3. Marcelo, Ycaro Leão e SH Marra, observadores ponderados de nossa situação, apoiam o movimento de resgate do Clube com a formação de uma ampla força de reconstrução. Desistir do Cruzeiro, nunca! SH Marra chega a sugerir que esta frente seja formada de fora pra dentro. Seria o ideal, se fosse possível. Mas não é. Sem o comprometimento de quem comanda o Cruzeiro, nada pode ser feito em seu nome. O caso dos conselheiros remunerados é um bom exemplo. Cheira mal há sete meses, graças à única liminar “incaível” do direito brasileiro. Só o Clube, recorrendo, derrubaria. Mas o atual Cruzeiro não quis recorrer e considera a liminar como coisa julgada. 

4. Galo Doido New York: condômino preferencial deste QUINTAL, líder oposicionista, aceite um conselho amigo: volte a atacar o IFFHS e fique só nesta área, onde você não se saiu muito mal.  Sem calçar as sandálias da humildade, jamais adentre a terra sagrada da Tríplice Coroa, das copas e campeonatos nacionais. É fria, pra você!

5. André Luís critica minha afirmação de que, sem êxito, muitos avisos foram dados nos últimos 10 anos. E me condena sem dó nem piedade: “E o caro conselheiro, fazia o que lá? Ah, tá, via tudo acontecer e ficava calado. Você é tão culpado quanto Itair, Serginho, Wagner, Pedrosa, Benecy, Deivid e outros. ”

Como não trabalhei com Deivid, não posso opinar sobre ele.  Mas é injusto e cruel colocar Benecy nesta lista.

André Luís: conselheiro, de modo geral, não fica sabendo de nada. No ultrapassado sistema presidencialista do Cruzeiro, o Conselho Deliberativo toma conhecimento pela imprensa, e só quando viram notícia, das trapalhadas feitas no andar de cima. Exemplos gritantes: as dívidas não pagas, os absurdos contratos de Fred e Rodriguinho, bem como o festival desvairado sem lei nem ordem dos aumentos salariais. Recordo-me do caso Rodriguinho: foi anunciado que ele, embora disputado por um monte de clubes, estava chegando ao Cruzeiro só pelos salários… Itair/Wagner são mesmo fera, pensei na época, redondamente iludido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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