DE JANEIRO DE 2020 A 2021 UM ABISMO NO MEIO

  • por em 2 de janeiro de 2021

Gustavo Aleixo/Cruzeiro/Flickr

Há um ano, a Igreja de São Sebastião entornava esperança pelas portas e janelas. Lá dentro, entupido de gente, a lembrança de Salomé pintava de saudade os corações azuis. Lá fora, as organizadas repicavam cânticos de fé. Já havíamos esgotado os estoques de raiva, ódio, frustração por causa da B. E passamos a repaginar o Cruzeiro. Enquanto a Polícia apurava a rapinagem, a gente traçava planos de emergência: como contatos telefônicos eram improdutivos, um grupo cuidava das viagens à Ucrânia, aos Emirados e ao Equador, com nossos diretores, agentes e intérpretes, para solução in loco das chamadas “dívidas da FIFA”. Outro grupo, sediado no Marketing, cada dia mais entusiasmado com as inovações que iriamos implantar na Série B: contatos prévios com o comercio e indústria, para doações locais, em permuta, de brinquedos, utilidades, etc, de forma que em cada jogo, como visitante, os jogadores do Cruzeiro fizessem a distribuição desse material nos mais carentes asilos e orfanatos da região. Até a preparação de um “Raposão” local foi programada para animar os internos. A expectativa era a de que, após os primeiros jogos, a presença do Cruzeiro em Maceió, Campinas, Ribeirão Preto, São Luiz, Cuiabá e outras praças passaria a ser aguardada também por essa gama imensa de desvalidos da sorte. Ações sociais além do gramado, marcando a presença de um time verdadeiramente grande na Série B.

Estes eram alguns dos planos para o nosso mandato provisório e foram anunciados do púlpito da Igreja de São Sebastião, dia 2 de janeiro do ano passado, quando o celebrante, para minha surpresa, concedeu-me a palavra. A emoção, o apoio de alma e coração brotavam dos bancos da Igreja, como uma entusiasmada corrente de solidariedade que me ajudou a levantar e caminhar. Até hoje não sei como consegui falar. Sei como consegui sair da Igreja: pela porta lateral, escondido em um taxi, para escapar de quem queria carregar nos ombros até a sede da rua Guajajaras, não a pessoa física de um pobre mortal, mas a esperança, a reconstrução do Melhor Clube Brasileiro do Século 20!

O Gigante iria voltar, sem qualquer dúvida.

A noite de 2 de janeiro de 2020 era só esperança, fé. Compromisso de luta, garra, doação.

Aí surgiu o Coronavirus trancando o mundo em casa.

Aeroportos fechados. Confinamento. Planos jogados no lixo.

Hoje, no fim do campeonato da Série B, a nossa melhor expectativa é continuar na Série B…

Um monte de erros e equívocos, dos ex (entre os quais me incluo) e atuais dirigentes, prepotência, arrogância que não deixa voltar atrás e corrigir rumos, péssimas avaliações, persistência nos fracassos, velas simultâneas acendidas a Deus e ao diabo, tudo isto que, hoje, infelizmente, forma um caldo de tragédia anunciada.

É do bê-a-bá da Administração que você não consegue resultados diferentes, repetindo as mesmas práticas. Em português rasgado isto significa: demos vexame disputando a Série B em 2020. Mantido o esquema atual, teremos mais do mesmo: outro vexame.

Uma pena, no ano do nosso Centenário.

BATE PAPO NO QUINTAL

1 Um Ano Novo com vacina aplicada em cada brasileiro e sendo eficaz, para nos livrarmos desta terrível pandemia. Que a vida econômica retorne rápido ao normal, reduzindo os alarmantes índices de desemprego. E que atleticanos e cruzeirenses continuem comprovando, neste QUINTAL, que o futebol é a coisa mais importante entre as coisas desimportantes.

2 Antônio Tonidandel alivia para Felipão observando que ele tirou minhoca do asfalto. Pode ser, no início. O pecado surgiu depois da repetição absurda de um esquema absolutamente improdutivo. Fomos atirando pontos preciosos no lixo, trocando passes o jogo inteiro na nossa intermediária, como se fosse proibido atacar.

3 Conselheiros remunerados e ratos no porão do navio. Esses imbatíveis passageiros farão de novo toda a travessia de 2021?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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