SIMBIOSE

  • por em 6 de janeiro de 2021

     

O dicionário ensina: “associação de dois ou mais seres de espécie diferente, que lhes permite viver com vantagens recíprocas. ”

No reino animal e no vegetal são inúmeros os exemplos desse auxilio mútuo.

No futebol e em razão da bipolarização, os casos mais contundentes nasceram em Belo Horizonte e em Porto Alegre. Uma relação de “ódio esportivo” incendeia as torcidas rivais sedimentando paradoxalmente um liame de dependência psicológica. Vencer é uma alegria que só se completa com o rival abatido, se possível humilhado. É por isso que aquele 6 x 1 não tem preço. Mas também é por isso que os atleticanos, há dois meses, se instalaram no paraíso, liderando a Série A e vendo o Cruzeiro ameaçado de cair para a Série C. Impossível, no futebol, felicidade mais completa.

Aí entra um terceiro fator que vamos chamar de B.O. com duplo sentido: lembra ocorrência urgente, mas principalmente, “balão de oxigênio”. Teleologicamente, tem a ver com aquela famosa pesquisa feita nos Estados Unidos, já lembrada aqui: Você prefere ganhar na loteria ou ver a casa do vizinho, melhor do que a sua, pegar fogo? Óbvio, o incêndio venceu. Na arena, onde cruzeirenses e atleticanos mostram todo dia que “viver é lutar”, desgraça do outro é colírio para os nossos olhos. Há algumas semanas, a gente na lona, aquele refrão de “segue o líder! ” era cutucada em nervo de dente exposto. Como doía. Até que São Paulo, milagroso, nos trouxe o balão de oxigênio. Goleada prá silenciar galinheiro.

Se tivesse foguetes em casa, teria soltado, como fizeram centenas de atleticanos na madrugada de 23 de novembro de 1976, vendo o Cruzeiro, num campo coberto de neve, perder por 2 x 0 a primeira partida contra o Bayern, na disputa do Campeonato Mundial de Clubes. O time era base da seleção alemã, campeã do mundo em 74. Munique, cinco graus negativos. Fiquei impressionado com a quantidade de atleticanos acordados às 3 da madrugada, foguetes na mão. Depois passei a entender. Um 0 x 0 no mês seguinte, com 113.700 torcedores presentes no Mineirão, tirou-nos a chance do título mundial. Mas deu aos atleticanos uma nova bandeira: “Obrigado, Bayern”.

Isto é uma espécie sui generis de ”simbiose esportiva”. E ela vem de onde menos se espera. Quem já ouvira falar, antes, em “Afogados da Ingazeira”?

É por isso que este QUINTAL tem de ser democrático. Precisamos dos atleticanos, como eles precisam de nós. Por exemplo, agora, nesta triste situação de barco sem bússola em que nos encontramos, em alto mar e ameaças de novos tsunamis, passamos o olho na tabela da Série A e, mesmo com os incríveis resultados de ontem, vemos um time com a flanelinha na mão, prá entregar a quem? São Paulo? Flamengo? Inter? Grêmio?

BATE PAPO NO QUINTAL

1. Geraldo, não podemos impor censura neste QUINTAL, que está nos fundos e propositalmente não tem muros. Todos que aqui chegam são benvindos, mesmo que para dar pancadas. Às vezes, acho que mereço algumas mesmo. Como você, também não gosto de palavrões e termos chulos porque felizmente não convivi com eles. Nem todos, porém, tiveram essa sorte. E é sempre um bom exercício experimentar a diversidade.

2. O Terror das Segundinas, como um “vampiro” a procura de sangue, sentiu falta da coluna segunda-feira.

Este QUINTAL surgiu com a pretensão de ser um modesto auxiliar de fé e estímulo ao retorno do Cruzeiro à Série A. Aceitei o não fácil desafio de, todo dia, inclusive fins de semana e feriados, com ou sem jogos, enviar mensagens de esperança à Nação Azul. Acho que não ajudei muito. Os próprios comandantes não se convenceram de que isto seria possível. Como já revelei, tenho a honra de participar de 40 grupos de cruzeirenses. De um deles, domingo último, recebi mensagem dura: “Dalai, vc poderia aliviar um pouco prá nós. Já é difícil aguentar esse time horroroso ameaçado de cair para a Série C, o Corona-Wagner, o Coronavirus, esses jogadores, essa diretoria, esse comando técnico, e ainda sua coluna diária!

Por favor, salte um dia. A gente poderá ficar livre de você, dia sim dia não”. Resolvi atender. Afinal, agora a nossa “luta oficial” é nos livrarmos da terrível ameaça dos 0,0001% de cairmos para a C.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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